História
OCUPAÇÃO HUMANA DE CHAPADA DOS GUIMARÃES NO SÉC XVIII.
Jorge Belfort Mattos Jr. Historiador/Especialização/História de Mato Grosso
A região que hoje é denominada Chapada dos Guimarães, possuiu intensa movimentação, desde os tempos mais remotos quando a região era dominada apenas pelos sul-americanos nativos, que nos deixaram muitas inscrições e desenhos rupestres em diferentes pontos da Chapada. Posteriormente equipes espanholas de reconhecimento mapearam a região, estabelecendo inclusive, algumas estradas e caminhos que seriam reabertos pelos colonizadores portugueses oitenta anos depois.
Após a chegada dos bandeirante paulistas, Chapada conheceu um novo dominador de suas terras que, atraído pelo ameno clima e a fertilidade de seus úmidos vales aliados a salubridade da região, se instalou, produzindo alimentos para a região mineradora que dominava a região de Cuiabá até Diamantino, expandindo este comércio até as colônias espanholas.
No primeiro momento de 1779 a 1751, os comerciantes detentores da burocracia colonial em mato Grosso dominaram todos os canais de circulação e pontos estratégicos.
Num segundo momento 1751 ao final do séc. XVIII, já vemos uma corte preocupada num primeiro instante com a concorrência da mão-de-obra indígenas com a negra, criando inclusive, uma redução em Chapada para catequizar índios, construindo a primeira igreja onde é chamada de Aldeia Velha, com telhado de palha. Em 1759, o marquês de Pombal expulsou os jesuítas vindo os padres seculares substituí-los. Embora não interessasse tanto à corte portuguesa a instalação de fazendas em áreas de garimpo, muitas sesmarias foram doadas incrementando a produção. Em 1779, o Juiz de fora José Carlos Pereira, promoveu a construção de Igreja matriz fortalecendo o núcleo produtor que revertia sua produção a Cuiabá e a zona de garimpo.
A partir da construção da Igreja Santana, a população de garimpeiros e colonos concentrou-se no entorno da Igreja. Muitas fazendas instalaram-se na região caracterizando-se como uma região importante para o abastecimento urbano de gêneros de subsistência. A instalação destas fazendas aconteceu num momento em que a corte portuguesas não estimulava essa atividade em área de mineração para poder trocar o minério pelos produtos trazidos pelas moções. Durante o período de escassez de minérios o que sustentou a região foram estas fazendas, responsáveis pela alimentação básica dos colonos.
Em Chapada instalaram-se diversas fazendas nesta época com a produção de cana-de-açúcar, mandioca, carne seca, café para pequeno consumo e frutas da época. A mão-de-obra era a escrava negra e a do assalariado em funções de comando. As fazendas coloniais de que temos notícia são:
Buriti/Monjolinho - 1720
Glória - 1763
Lagoinha - 1784
Ribeirão de Jardim - 1785
Abrilongo
Engenho
Ribeirão Costa
Jamacá
Capão do Boi
São Romão
Santa Eulália
Laranjal
Capão Seco
O meio de transporte mais comum eram os caminhos tropeiros que ligavam a Cuiabá. Existia também o " caminho de terra para Goiás" , que foi aberto em 1737, num momento em que os índios Paiaguás ocupavam o caminho via Paraguai, no qual trouxeram o primeiro gado vacum para a região. Com o desenvolvimento de Chapada na época imperial com a produção de alimentos, o comércio fronteiras no sentido oeste, obtendo em troca de gêneros alimentícios e gado, a preciosa prata espanhola, isto escondido dos olhos oficiais, pois este comércio era considerado contrabando.
Após a abolição da escravidão Chapada vai mergulhar numa profunda recessão pois a produção era essencialmente feita pela mão-de-obra negra. A população havia diminuído bastante em virtude da peste da varíola que foi trazida pelos que voltaram da guerra do Paraguai, enfraquecendo ainda mais a produção local. Os grandes proprietários descapitalizados com a abolição, estavam desanimados, mas há notícia de que os primeiros anos do séc. XX ainda existiam negros cativos trabalhando para patrões que faziam questões de ignorar a Lei Áurea. Na década de trinta e início da de quarenta, chegou à Chapada a missão de saúde Franciscana que organizou melhor a comunidade, criando um posto de saúde que mais tarde transformou-se no Hospital Santo Antônio e a Escola São José administrada pelas irmãs franciscanas. Desde 1923 existia a Escola Evangélica de Buriti, que em 1913, quando estava bastante abandonada pelos "Siqueiras", ex-proprietários, foi comprada pela missão evangélica interessada em instalar no Brasil Central uma obra para disseminar o seu pensamento religioso. Na primeira do séc. XX, a região desenvolveu-se nas áreas do garimpo; surgiu o distrito diamantífero de Água Fria que se notabilizou pela produção em seus primeiros anos e pela instalação de cabarés muito famosos na época. Mas houve um período de interrupção de alguns anos de estrada que ligava a Cuiabá, sendo feito o trajeto apenas pelos caminhos tropeiros. Após a década de sessenta, o município, que na época era o maior do mundo com suas fronteiras chegando ao Estado do Pará e dividindo-se com São Félix do Araguaia, começou a ser mais ocupado. Na década de setenta começaram a se desenvolver núcleos de colonização com Alta Floresta, Colider, Sinop, Nova Brasilândia, Paranatinga e outras.
O cultivo do arroz começou a ser mecanizado e a pecuária intensificou-se mais. Com a construção e pavimentação de estrada Cuiabá - Chapada, o turismo começou a ser mais intensificado sendo encomendado um " Plano Diretor de Turismo para Chapada dos Guimarães", que foi feito pelos competentes arquitetos Maria Elisa Costa e Lúcio Costa, que definiram um zoneamento turístico para Chapada dos Guimarães, mas do que, infelizmente, quase nada pôde ser cumprido.
É necessário a implantação de uma política ambientalista em Chapada; um primeiro passo foi feito - o Parque nacional de Chapada dos Guimarães mas ficou muito aquém das áreas que devem ser preservadas tanto por sua natureza como pela cultura, que correm riscos de total descaracterização.
Um turismo direcionado para a preservação é o grande trunfo de Mato Grosso, pois é cada vez mais rara no mundo a paisagem natural, e quando aliado à preservação histórica toma um caráter cultural de grande importância, pois o turista conhecerá um pouco da história local e a população vai valorizar cada vez mais o seu passado e ajudar a preservar um pouco mais o nosso planeta.
O tombamento do patrimônio ecocultural pela SPHAN é urgente, pois somente assim poderemos preservar um pouco da cultura mato-grossense.
CASA DE PEDRA
A casa de Pedra é uma formação muito característica, pois sempre abrigou espécimes animais e naturalmente tem muita história. Os sinais mais antigos foram descaracterizados; existem citações de escravos e visitantes que lá se abrigaram durante noites ou friagens. Para evitar sua total descaracterização são necessárias algumas normas de conduta para os eventuais freqüentadores: delimitação da área, onde os carros possam vir a ter acesso; lixeira; e proibição de riscar, sujar e depredar a área.
TAPERA DO CAPÃO SECO
A tapera pertencia a Antônio Eloy Paixão, que possuía um comércio de gêneros alimentícios produzidos na região e comerciava também alguns produtos industrializados. Seu Antônio Eloy tinha uma tropa de animais e freqüentemente descia para Cuiabá para vender a farinha de mandioca produzida em Chapada. No início da década de sessenta a terra vendida e a casa abandonada, vindo a ruir alguns anos depois; a área foi subdividida e novas construções foram erguidas distante uns mil metros a sudeste.
CAVERNA AROE-JARI
A região em torno da caverna Aroe-Jari está praticamente preservada apesar da ocupação mecanizada e extensiva e com possibilidade de uso de agrotóxicos e defensivos a cerca de oito km de caverna. Uma fazenda na baixada Cuiabana e aos demais limites ser ocupação visível do ponto mais alto da região.
ADJACÊNCIAS DO MORRO DE SÃO JERÔNIMO
Esta região de excepcional beleza cênica está relativamente preservada. Há criação extensiva de gado, vestígios de uma antiga construção, formações rochosas modeladas ao evento - " uma Pedra Chapéu de Sol ou Cogumelo de Pedra" - e as casas da fazenda.
Existe um caminho que desce a serra, o " Quebra-Gamela", devido a ser íngreme, mas muito usado no trajeto para Cuiabá e Coxipó do Ouro. Na serra abaixo um garimpo devasta uma grande porção de terra.
CACHOEIRA DO VÉU DA NOIVA
É de incrível beleza cênica, tanta que impressionou Dom Aquino Corrêa, que quando lá esteve escreveu um poema intitulado " Véu de Noiva "; originando o nome da cachoeira. Já foi alvo de muitos cinegrafistas, artistas e fotógrafos, pesquisadores e turistas, que caminham pela beira do paredão até o rio, e os mais dispostos descem até o lago que forma, onde cai a água.
O turismo desordenado causa acúmulo de lixo e até risco para as pessoas que descem a trilha, ao atirarem pedras lá de cima.
VALE DO JAMACÁ - CAPÃO DE BOI
No Jamacá existe uma ocupação intensiva chácaras de lazer e algumas fazendas nas áreas superiores. A atividade é a pecuária, além da agricultura de subsistência. A vegetação primária na cabeceira está ameaçada bem como mais abaixo, antes da confluência com o Capão de Boi, onde a capoeira já está bem reformada.
A ocupação original foi em 1892, como atesta a carta de Sesmaria; a partir desta data, o vale foi sendo subdividido, e imigrantes alemães instalaram-se na década de 1920 até que o INCRA subdividiu a área em 25 a 46 ha. Já foi subdividida em áreas de até dois ha, sendo transformada em área urbana, com aspectos de chácaras de lazer.
MATA FRIA
A Mata Fria era uma região conhecida como Portão do Céu, pois a estrada antiga passava sobre uma ponte toda protegida com muro de arrimo de canga, atualmente uma curva na estrada sem Guard-rail; já ocasionou vários acidentes graves, tornando a parte baixa do aterro da curva um cemitério de automóveis e cruzes. O aterro descaracterizou totalmente o vale, mas a vegetação já cresceu bastante, tornando uma bela região para caminhada. Existe na parte mais alta que margeia a rodovia uma erosão acentuada no antigo leito da estrada velha. Um quilômetro acima da Mata Fria, temos formações de arenito sugestivas e curiosas.
Seria interessante disciplinar o uso turístico para evitar perigo e depredação.
CAPÃO DA RUÇA
A região é marcada pela existência de uma mata seca de topo (uma das últimas da região), uma área de campo utilizada para pasto onde recentemente foram instaladas as salas de aulas e alojamentos da clínica.
Existem o sítio Alto do Céu de Fernando Almeida, de Cuiabá, que faz divisa com a base do radar e com o aviador - Pouso da Águia, para onde só há acesso de avião, instalado em um degrau da cuesta onde está o campo de pouso, o hangar, a casa e uma mata na beira do paredão, instalada na década de 70.
A "Irmã Scheila" faz divisa com as propriedades de Fernando Almeida e José Luiz, que atinge até o vale do Capão da Ruça. Lá existe uma antiga tapera onde se plantavam milho arroz e feijão e por onde freqüentemente os tropeiros passavam.
CACHOEIRA PRAINHA
É uma região onde as cachoeiras se multiplicam e temos dois acessos mais usados, uma pela própria cachoeira em plano inclinado na pedra e outro alto do morro da margem direita que segue pela mata descendo até a praia.
CACHOEIRA DAS ANDORINHAS
A ocupação do entorno da cachoeira não chega a descaracterizar a região, exceto pela enorme construção no plano á esquerda feita pelos presbiterianos; diversas trilhas entrecruzam-se. Existem acesso à cachoeira Independência, ao morro em frete (morro do "Romano") que dá acesso ao morro do Gavião.
A subida à margem direita dá acesso ao estacionamento. Seguindo o córrego há inúmeros poços, cachoeiras e lagoas excelentes para um banho. As trilhas podem ser melhoradas principalmente nas veredas, pois o uso intenso causa erosão; encontram-se muitos cacos de vidro na areia da cachoeiras, trazidos por turistas inescrupulosos, que põem em risco outros usuários. as descidas também precisam de obras de contenção, como instalação de degraus de pedra com corrimão de cordas presas em palanques enterrados nas veredas; serão necessários seixos largos, de forma que possibilitem o trânsito sem afundar o pé na areia fofa e úmida, e placas indicando as direções.
CACHOEIRA DO DEGRAU
A região é de uma natureza exuberante, com uma sucessão de lugares aprazíveis e cada curva ou desvio do rio Sete de Setembro. No entanto ,está se modificando pelo uso intensivo e desordenado, com freqüentes desmates por inexperientes campistas. A trilha já apresenta sinais de desgaste, provocando uma erosão, e muito lixo se acumula ao redor.
No passado, a região já foi alvo de garimpagem, que há muitos anos não é praticada.
CACHOEIRA INDEPENDÊNCIA
A região dessa cachoeira já foi área de garimpo, mas atualmente o Turismo domina o fluxo humano. A vegetação está bem conservada e a presença do homem é marcada pela existência de alguns seixos de concreto rolados pela águas e lixo dos visitantes.
Seria interessante se a trilha fosse consolidada com a colocação de pedras em locais íngremes, pois além de dificultar um pouco o acesso, evitaria o desbarrancamento e a utilização de outras trilha não adequada. Nas próprias árvores poderiam ser fixados corrimãos; pedras de arenito seriam colocadas semi-enterradas e os corrimãos amarrados.
CACHOEIRA DO SONRISAL
A área está descaracterizada na região de acampamentos, com diversas pedras para servir de apoio nas fogueiras.
CACHOEIRA DO PULO
A humanização da paisagem é mínima, exceto pelos que eventualmente rolam pela cachoeira ou são deixados por turistas inconseqüentes. Durante as fortes chuvas, as correntes de água chegam a modificar o banco de areia e as folhas no fundo, no lugar do "pulo".
A trilha de acesso poderia ser consolidada e um corrimão rústico de madeira poderia ser apoiado nas árvores.
MONJOLO DOS PADRES
Foi um monjolo que os Franciscanos instalaram na década de 1940 para fabricar farinha, abastecendo, assim a cidade de Chapada. O produto era disputado no mercado com a fama até em Cuiabá.
Depois de desativado, o local agora é utilizado para moradia, com horta e pequenas criações.
História DA CHAPADA DOS GUIMARÃES
O bandeirante paulista, Pascoal Moreira Cabra, chegou em Cuiabá no ano l718, no ano seguinte funda-se a "Vila do Nosso Senhor do Bom Senhor Jesus de Cuiabá" e em 1720, um dos integrantes de sua bandeira chamado Antônio de Almeida Lara sobe a serra de Chapada com a desculpa de caçar perdizes, quando na realidade estava disposto a encontrar um local para construir uma fazenda.
Antônio de Almeida Lara sabia da proibição que as cortes portuguesas faziam em relação a ocupação e a aberturas de fazendas em região de garimpo.
Os portugueses não queriam a abertura de fazendas, pois iriam tirar trabalhadores do garimpo gerando impostos a Portugal. Além disso, os produtos gerados pelas fazendas iriam concorrer diretamente com as "monções" de abastecimento que eram monopólios dados a determinadas companhias de comércio. Essas companhias detinham a exclusividade com o comércio regional, abastecendo com víveres, óleo, sal e outros produtos importantes para a sobrevivência dos garimpeiros, que eram trocados pelo ouro produzido.
O governador de São Paulo, naquela época, era Rodrigo Cesar de Menezes e havia delegado aos bandeirantes o poder para representar a burocracia portuguesa e fazer aplicar as leis. Além de coletar os impostos, deu a liberdade necessária para a construção de várias fazendas na região do garimpo, sendo a primeira fazenda de cana de Mato Grosso a fazenda “Burity Monjolinho” exatamente onde hoje e a Escola Evangélica de Burity.
Antônio de Almeida Lara armou seis canoas e foi para a região de São Paulo em busca de mudas de cana de açúcar, voltando seis meses depois com as mudas, que logo foram plantadas em sua fazenda.
A cachaça produzida no engenho foi de grande serventia para a população já bastante sofrida pelas pestes e malária que assolavam a região. A cachaça do Buriti servia para amenizar o sofrimento.
A produção de produtos dessa região tornou-se mais importante ainda, quando os índios Paiaguás, exímios guerreiros, confederaram-se com os Guaicurús, índios cavaleiros que habitavam o sul do Pantanal e fecharam a passagem do rio Paraguai para os brancos num período de 1731 até 1737, impedindo assim o abastecimento feito pelas monções.
Com o fechamento dessa passagem pelos índios a população sitiada teve que sobreviver da caça e dos produtos produzidos pelas fazendas clandestinas. Este isolamento só foi terminado após mais uma vez terem desobedecido a ordens portuguesas de não abrir estradas na colônia para dificultar o trânsito dos produtos fora do monopólio português.
A nova estrada ligou Cuiabá até a cidade de Goiás Velho passando pela Chapada dos Guimarães, chegando então o primeiro gado vacum na região. Mais tarde os índios Paiaguás foram dizimados, na sequência os índios Caiapós. A cidade de Chapada era toda cercada pôr muros de pedra canga para repelir ataques indígenas.
A rainha de Portugal, D. Maria, percebendo que os impostos não chegavam a Portugal, nomeou uma pessoa para vir fazer a "derrama", cobrança de impostos à força. Um baú cheio de ouro foi enviado a Portugal, quando o baú foi aberto só havia pedras comuns. A partir deste fato, Mato Grosso foi desmembrado da Capitania de São Paulo.
A corte nomeia um governador português que chega a Cuiabá em 1751 trazendo em sua comitiva padres Jesuítas. Livros revelam que os índios eram outra fonte de renda para os bandeirantes, pois São Paulo era uma capitania pobre e tinha dificuldade em adquirir o caro escravo negro, sendo que, o índio era vendido pôr um terço do preço do negro, tornando um forte concorrente aos negócios portugueses.
A primeira missão Jesuíta de Mato Grosso foi num local onde hoje e denominado de Aldeia Velha, distante cerca de três quilômetros do centro de Chapada, foi dirigida pelo padre Estevão de Castro. Na missão foi construída uma igreja coberta de palha e altar forrado com papéis pintados com a imagem de Nossa Senhora de Santana do Sacramento ladeada de Santo Inácio de Loyola e São Francisco de Assis. Em 1759 o Marquês de Pombal que governava o Brasil delegado pelas cortes portuguesas expulsou todos os Jesuítas do Brasil pôr causa das missões do Sul do Brasil que ameaçavam sublevar-se ao governo português, deixando a aldeia de "Santana" abandonada, dispersando os índios que aqui moravam.
Em 1778 o Dr. José Carlos Pereira um Juiz de Fora de Cuiabá ao subir a serra deparou-se "com as condições deploráveis para a celebração dos ofícios divinos" da capela da antiga missão e reúne condições para erigir em tempo recorde uma nova igreja, distante cerca de meia légua da original, muito bonita e feita de taipa pilada sendo inaugurada em julho de 1779. Uma procissão transportou as imagens para a igreja nova, transferindo a cidade para a nova localidade.
Em l782 a cidade deixa de chamar-se Chapada de Santana e passa a chamar-se Guimarães (nome de uma cidade do norte de Portugal), em respeito a uma lei que obrigava mudar os nomes de localidade na região para diferenciar das terras da Espanha. Apenas no século XX, colocou-se "dos Guimarães" o que daria uma falsa idéia de uma suposta família Guimarães que teria a propriedade da região.
Engenhos
Muitos engenhos vão instalar-se em Chapada tornando a região importantíssima para o abastecimento local e terras da Espanha em troca da prata espanhola, que era contrabandeada para Portugal. No final do século XIX justificou-se a construção de uma estrada de ferro ligando a região da Lagoinha no interior de Chapada até Cuiabá para o escoamento da produção.
Após a guerra do Paraguai, os soldados voltaram com a peste da varíola ou bexiga que vai dizimar quase um terço da população chapadense. Em 1888 com o fim da escravidão, Chapada entra na mais profunda decadência, principalmente por não conseguir fixar os imigrantes europeus na região, por causa do clima e pela quantidade de doenças e mosquitos.
Chapada entra no século XX com apenas 10% da população que tinha no século XIX. A fazenda Buriti, já abandonada, é vendida por um preço bem abaixo do mercado aos presbiterianos norte americanos que saem de Salvador-BA no lombo de burros para estabelecer a primeira missão evangélica do Brasil Central. Estabelecendo em l923, a Escola Evangélica do Buriti, que durante muito tempo foi um colégio técnico agrícola em regime de internato, formando meninos e meninas para uma vida no campo.
Apenas na década de 1960, com o inicio da mecanização da agricultura começam a abrir os campos para agricultura. Nesta época, o município de Chapada era o maior do mundo, com mais de 204 mil KM quadrados, maior que a Alemanha antes da unificação, indo ate o limite com o Pará na Serra do Cachimbo, posteriormente desmembrado. Durante a década de 70, a expansão da pecuária estimula a criação de uma rodovia asfaltada entre Cuiabá e Chapada.
No final dos anos 70 o asfalto a televisão e o telefone interligam Chapada com o mundo. Nesta época, a cidade tinha pouco mais de mil habitantes. Hoje Chapada dos Guimarães conta com 18 ml habitantes, desses, 10 mil na zona urbana. Segundo a prefeitura, em 2011, Chapada possuía 1886 casas de veraneio e todo fim de semana recebe em torno de quatro mil pessoas.
Imagem Nossa Senhora de Santana

|
Alguns autores tem atribuído aos jesuitas a construção da igreja e até mesmo aventado a hipótese de colaboração de mão de obra indígena, por eles preparada, na feitura dos retábulos e de mais obras de talha.
A tradição diz que os seixos que formam o adro da igreja foram trazidos do Coxipó a grade distância e serra acima, nos ombros dos indios da missão.
Regressando a Cuiabá, começou a tratar de conseguir meios para levar a cabo seu projeto. Muitos tentaram dissuadi-lo, alegando a avultosa quantia de ouro necessária à obra, "para a qual não havia nem um vintém". Além disso, "também corria que na dita missão não havia artífices que pudessem trabalhar nela, nem mesmo ainda aprendizes", e que para "os mesmos indios que houvessem de socar as paredes, que nesta região são de terra pilada, não havia na dita missão mantimento algum para sustento, porque no ano anterior não tinham feito roças." Nessa construção ele "empregou o seu desvelo, a sua fadiga, o seu cuidado e muita parte de sua fazenda." A igreja foi, portanto, construída quase 20 anos depois da expulsão dos jesuitas. Da primitiva palhoça só foram para a nova igreja as imagens: Santana, Santo Inácio de Loyola e São Francisco Xavier.
Com as chuvas que caíram na Chapada dos Guimarães e, considerando que o frontispício não poderia resistir sendo de taipa, resolveu reconstruí-lo de pedra tapanhucanga.
Teve de esmola para essa obra 64 oitavas de ouro que legou em testamento o padre João Alves Torres, pároco da missão, que falecera em abril daquele ano (1781), e que já em vida havia dado de esmola para a mesma 400 oitavas de ouro. O padre Francisco Xavier Leite de Almeida deu para o douramento 780 oitavas por lhe haver o Dr. Carlos conseguido o provimento nessa igreja, evitando assim que fosse mandado para São Luiz da Vila Maria do Paraguai.
Uma última notícia que interessa à história da igreja de Chapada dos Guimarães encontramos nas Crônicas do Cuyabá - quando o Dr. José Carlos Pereira, na viagem para o Reino, chegou a Ararituaguaba, encontrou ali, por coincidência, a nova imagem de Sant'Ana do Sacramento que havia mandado vir do Rio de Janeiro, e que estava aguardando monção para Cuiabá. A maior parte da documentação da igreja de Santa Ana perdeu-se ou extraviou-se. Entretanto a Casa da Ínsua - solar da família Albuquerque em Portugal - guarda os dois preciosos projetos setencionistas. O "prospecto da igreja da Aldeia da Chapada", que representa os alçados laterais e principal da primeira construção (1779) e o "prospecto da igreja Matriz da Senhora Santa Ana do Sacramento", que representa os alçados lateral e principal e a planta do projeto de 1780.
Lâmpada de prata A igreja de Santa Ana sempre despertou a atenção dos viajantes que passaram pela Chapada dos Guimarães. O desenhista da expedição Langsdorff, Hércules Florence, que ali esteve em 1827, teve dela a seguinte impressão: "A acanhada igreja nada apresenta de notável no exterior. Interiormente, porém, se bem decadente, é, guardadas as proporções, a mais rica de toda a província em ornamentos e baixos relevos dourados. Ninguém pensa, por certo, encontrar tais restos de riquezas numa decadente aldeia da província de Mato Grosso." Há ainda uma imagem de São Miguel Arcanjo e outra de São José de botas, colocadas nos dois pequenos altares que ladeiam o arco do Cruzeiro. Há três belas lâmpadas de prata, uma diante de cada altar, e um conjunto de prata de coroa, cetro e salva das festas do Divino Espírito Santo.
Acima: São Miguel Arcanjo; abaixo: São José de botas, escultura que retrata o santo com vestes de bandeirante.
Grande parte da barra de azulejos portugueses do século XVIII que contornava internamente toda a igreja conserva-se. Causa admiração ter sido importado, em época remota, através dos longos e trabalhosos caminhos do sertão, material tão quebradiço e difícil de transporte. A igreja de Santana, como é chamada hoje, foi a primeira a ser tombada como patrimônio histórico em Mato Grosso, em 1957.Após o tombamento as intervenções na igreja de Santana do Sacramento passaram a ser controladas e executadas pelo Iphan. Três grandes obras de restauração foram realizadas no templo: uma em 1977, outra entre 1994 a 1996 e a mais recente em 2008. Em 2009 a igreja passou por uma pequena restauração e já está aberta a visitação. Fonte: livro de João Eloy de Souza Neves, "Chapada dos Guimarães, da descoberta aos dias atuais" – 1979 site: http://www.chapadadosguimaraes.tur.br |
Histórias de Nossa Gente
As pessoas descritas abaixo deram e dão a sua contribuição para transformar socialmente, culturalmente e financeiramente a sociedade mato-grossense. Cada uma de sua maneira participou e participa da vida de sua cidade e do seu Estado. São resumos e exemplos de vida que deram e dão sua contribuição para a transformação social desse país.
Thermosina Siqueira Lopes da Costa, carinhosamente conhecida como Dona China, a primeira e até agora a única mulher prefeita de Chapada dos Guimarães. Nascida no Coxipó do Ouro, Distrito de Cuiabá, no dia 28 de julho de 1931. Foi vereadora por dois mandatos. Pai chapadense e mãe cuiabana. Em 1970, já casada e mãe de três filhos, foi eleita prefeita numa época em que Chapada era o maior município do mundo em extensão territorial, 204.304 m², fazia divisa com o estado do Pará.
Em sua gestão foi construída a Escola Rafael de Siqueira (pai de Thermosina) e o asfalto da rodovia Emanuel Pinheiro, que liga Cuiabá à Chapada. Trouxe a primeira cabine de telefone para a cidade. Hoje, aos 81 anos (março de 2012), ainda trabalha na prefeitura de Chapada.
A empresária, comunicadora e promotora cultural, Maria Antonieta Ríeis Coelho, que em 1969 foi à responsável pela condução da implantação e instalação da televisão em Mato Grosso, hoje TV Centro América. Foi com certeza uma das primeiras promotoras culturais do Estado, valorizou nossa cultura e descobriu talentos. Responsável pela formação dos primeiros entrevistadores e jornalistas televisivos do Mato Grosso.
Divulgação
Lígia Borges Figueiredo nasceu na cidade de Rosário Oeste, no Distrito de Bauxí, em 1904. Foi eleita em 1946, a primeira prefeita de Mato Grosso, de Rosário Oeste. A principal obra de sua administração foi a construção da Usina Hidrelétrica do Tombador, dentre outras. Por sua dedicação as carentes e necessitados era conhecida como a “Mãe dos Pobres”.
Divulgação
Já a primeira deputada do Estado de Mato Grosso, foi Oliva Enciso, que nasceu em Corumbá (hoje, Mato Grosso do Sul) em 1909. Foi eleita em 1958, pela UDN (União Democrática Nacinal).
Primeira mulher a ocupar uma cadeira numa Academia de Letras foi Ana Luísa Prado Bastos. Nasceu em 1898 em Cuiabá, assumiu a cadeira de n°27 durante seis décadas. Faleceu aos 87 anos.
Divulgação
Shelma Lombardi de Kato, primeira mulher na magistratura de Mato Grosso, primeira mulher desembargadora e corregedora Geral da Justiça. Em 1967, Shelma veio para o Mato Grosso e, no ano de 1969 surge o concurso para magistrado, onde foi aprovada, tornando-se a primeira magistrada do Brasil.
Líder Quilombola- Teresa Benguela, mais conhecida como Rainha Tereza do Quariterê, foi líder rainha do quilombo Quariterê durante duas décadas no século XVIII. Liderou um grupo de negros e índios instalados em Cuiabá.
A irreverente Maria Taquara, cuiabana da década de 40 e 50, com uma certa debilidade mental, que teria sido causada pela perda precoce de seu filho. Era pobre, morava num barraco, num grande terreno, situado onde hoje é o Shopping Goiabeiras. Quando todas as mulheres do país usavam saias e vestidos ela ousou desfilar de calças compridas de boca larga. Seu comportamento incomodava tanto a sociedade que foi presa sob a alegação de que não se vestia de forma adequada. Só foi solta quando uma estrangeira desembarcou em Mato Grosso, usando um modelo safári, calça e camisa.
Maria de Arruda Muller
Divulgação
Maria de Arruda Muller nasceu em Cuiabá, a 9 de dezembro de 1898, e teve uma vida dedicada as ações culturais, educacionais, filantrópicas e sociais de sua região. Concluiu seus estudos em 1915 pela Escola Normal “Pedro Celestino”, e posteriormente passou a exercer o magistério. Fundou o Abrigo dos Velhos e das Crianças em Cuiabá, foi fundadora também da Legião Brasileira de Assistência em Mato Grosso. Foi uma das fundadoras do Grêmio Literário “Júlia Lopes” e da Federação Mato-grossense pelo Progresso Feminino; e membro honorário do Instituto Histórico e Geográfico de Mato grosso. Por sua atuação cultural, recebeu títulos de países estrangeiros. A acadêmica colaborou com inúmeros jornais e revistas da época, entre eles: O POVO e A VIOLETA.
MARIA BENEDITA DESCHAMPS RODRIGUES
(DUNGA RODRIGUES)
Nasceu em Cuiabá no dia 15 de julho de 1908. Diplomada em piano e harmonia pelos Conservatórios de Mato Grosso e Brasileiro de Música do Rio de Janeiro, obtendo o registro no Instituto Villa-Lobos. Diplomada em contabilidade, fez inúmeros cursos de extensão, desde história da arte até sociologia educacional. Lecionou piano no Conservatório Mato-grossense de Música e no Conservatório Musical de Mato Grosso. Criou e lecionou no Conservatório Dunga Rodrigues. Aposentada como agente didático da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT).
PADRE RAIMUNDO C.POMBO MOREIRA DA CRUZ
Foto: Demóstenes Milhomen
Nasceu em Cuiabá, a oito de dezembro de 1913. Optou pela carreira eclesiástica, tendo se engajado na ordem Salesiana. Foi professor em diversas áreas, além de mestre, dedicou-se às artes literárias e teatrais. Padre Raimundo faleceu no dia 30 de julho de 1996, em Cuiabá.
BARÃO DE MELGAÇO
Gravura de Augusto Leverger, feita por Bartolomé Bossi (1865).
Augusto João Manuel Leverger, o futuro Barão de Melgaço, nasceu em 30 de janeiro de 1802, em Saint Malo, na Bretanha, terra de navegadores. Assim como seu pai Mathurin Leverger, João Manuel foi um homem do mar. Em 1819, atravessou o Atlântico, acompanhado do pai, rumo à América do Sul. No caminho, o navio naufragou, na embocadura do Prata. Ambos se salvaram, João Manuel ficou em Montevidéu, enquanto seu pai seguiu para Buenos Aires. João começou a velejar pelos mares do sul sendo que, em 1822, no início da luta pela independência do Brasil. João pediu dispensa de seu posto, pois não queria lutar contra o Brasil, e se mudou para Buenos Aires. Em 1824 ele se incorporou a Marinha Brasileira, no posto de 2o Tenente. Ele enfrentou várias batalhas, sempre com muito sucesso, subindo de posição. Ele se aposentou e foi morar numa chácara no Coxipó (Cuiabá). Mas, com a ocupação paraguaia, Cuiabá tinha receio de uma invasão. Com isso, Leverger deixa o retiro no Coxipó, apresenta-se ao Presidente da Província e assume como Comandante da Guarda Nacional em Melgaço. Com sucesso Leverger, aos 63 anos, recebeu as honras de Barão de Melgaço.
ANTÔNIO CORRÊA DA COSTA
Divulgação
Descendente de uma família de políticos mato-grossense se formou em engenharia pela Escola Central de Engenharia, hoje Politécnica do Rio de Janeiro. De volta à Cuiabá, foi professor de matemática, foi fundador e dirigiu o Externato Mato-grossense. Governou o Estado de Mato Grosso, num momento delicado, pois eram os primeiros anos após a vigência do regime republicano. Ele foi o segundo presidente constitucional de Mato Grosso. Seu governo foi marcado por importantes intervenções.
ISAAC PÓVOAS
Nasceu em Cuiabá, a quatro de janeiro de 1886, faleceu em outubro de 1970. Bacharel em Ciências e Letras foi professor e diretor de várias instituições. Dirigiu a Tipografia Oficial, foi chefe de polícia, seguindo-se na de secretário do Interior, Justiça e Finanças. Foi prefeito de Cuiabá. Político, jornalista e poeta. Foi um dos poucos escritores mato-grossenses que estudou nosso folclore.
JOAQUIM DUARTE MURTINHO
Divulgação
Nascido em Cuiabá, em sete de dezembro de 1848. Concluiu o curso secundário no Rio de Janeiro. Cursou a Escola Central que se destinava a matemática, ciências físicas e naturais e disciplinas de engenharia civil. Mas, acaba estudando medicina, onde se formou em 1873, defendendo a tese sobre o estudo patológico, em que sustentava os fundamentos da homeopatia. O médico ia progressivamente assumindo o lugar de engenheiro. O seu lado científico teve destaque internacional, dando-lhe a posição de Homem de Estado. Em 1889, dá-se o advento da república e Joaquim Murtinho é o político de alta projeção, participando como senador por Mato Grosso da primeira Constituinte Republicana, que resultou na Constituição de 24 de fevereiro de 1891, substituindo a do Império de 1824.








